
Escrevi este discurso tendo em conta o peso da História. Daqui a 50 anos eu e a grande maioria dos que aqui estamos reunidos já não estaremos vivos. No entanto, alguém estará no poder. Está sempre alguém no poder.
Quem consultar os registos do que aqui foi dito procurará respostas a duas questões essenciais: Que balanço fizemos nós, Governo e oposições, do que foi alcançado em 50 anos de Autonomia? Que grandes desafios perspetivámos para o futuro dos Açores?
No tempo em que o meu pai nasceu, muitas crianças do Corvo cresciam descalças. Agora, os nossos filhos terminam na ilha o 12.º ano e, querendo, seguem para a universidade. Nenhuma criança precisa de crescer descalça.
Um agricultor de 1870 não estranharia muito o mundo rural dos Açores em 1970. Mas certamente acharia o mundo dos nossos dias, um novo mundo. A Autonomia trouxe esse novo mundo para os Açores. De repente a modernidade, as coisas da América e de Lisboa, chegaram aos nossos lares. Deixou de ser necessário partir.
Mas a História não é apenas memória. É responsabilidade. E obriga-nos a olhar em frente.
O Atlântico português exige, nos Açores, mais meios, mais recursos e mais presença. Num momento em que se assiste, por todo o mundo, ao regresso de uma luta desenfreada pelo controlo de posições estratégicas, deixar desguarnecido o Atlântico português é de vistas curtas.
Nós — os Açores e o imenso mar que nos rodeia — somos o que separa Portugal da dimensão territorial herdada da Idade Média. É urgente dotar os Açores dos meios necessários para projetar e afirmar Portugal neste vasto espaço atlântico. Temos de o fazer quanto antes.
A cada dia, a cada mês, a cada ano, projetam-se sobre nós, cada vez mais próximas, as sombras negras da cobiça alheia. Outros veem aqui o que Lisboa tarda em ver.
O outro grande desafio da nossa Autonomia é a manutenção da unidade das ilhas que formam os Açores. Fala-vos um açoriano do Corvo, uma ilha que, em 1479, no Tratado de Alcáçovas, ficou fora do conjunto então designado por “ilhas dos Açores”. A fórmula diplomática usada reconhecia como pertencentes à Coroa portuguesa “todas as ilhas dos Açores e ilhas das Flores”. Séculos depois, em 1731, frei Manuel de São Luís escreveu ainda sobre as sete ilhas dos Açores.
Ou seja, fala-vos quase um estrangeiro neste Parlamento dos Açores. Se quiserem, um recém-chegado. Apesar disso – ou precisamente por isso – sinto que tenho legitimidade para pedir a todos que reconheçam uma verdade incontestável: progredimos tanto porque nos mantivemos unidos ao longo destes cinquenta anos.
Somos hoje o que a História, o destino e a Providência nos destinaram a ser. Uns Açores unos. Antes de as leis dos homens consagrarem a nossa unidade política, a devoção ao Espírito Santo já nos fizera Povo. O Povo do Espírito Santo.
Manter a unidade das ilhas e do Povo Açoriano é o que peço e grito. Manter unido o que o Divino Espírito Santo uniu. A nossa unidade, a nossa resiliência e o nosso patriotismo garantem que as bandeiras dos Açores e de Portugal continuarão aqui a ondular, lado a lado — não apenas por mais cinquenta anos, mas pelos séculos dos séculos.
Vivam os Açores! Viva Portugal!
Horta, Sala das Sessões, 04 de setembro de 2026
O Deputado do PPM,
João Mendonça

